Uma vitrine chamada vida
- Dr. Maurício de Souza

- há 4 dias
- 4 min de leitura

Quem é você?
Há um tipo de pobreza que quase ninguém confessa. A pobreza de não ser você mesmo. Na maioria das vezes, isso não acontece por maldade ou cinismo. Mas por medo e vergonha. Medo de parecer fraco, confuso ou feio. Vergonha de admitir quem realmente é ou faz. Admitir tem um custo, pessoal e social. Então, por isso, aprende-se um truque. O de criar uma versão apresentável de si. Um "eu" de vitrine.
Esse "eu" não é exatamente mentira, está mais para uma edição de nós mesmos. É um recorte. Uma foto com filtro. E assim criamos uma espécie de personagem social que vai à rua, conversa, posta, sorri e responde “tudo bem” com uma eficiência impressionante. Ele não existe para revelar o que somos, sua função é tentar garantir e controlar o que os outros pensam a nosso respeito. Mas esse "eu" não surgiu por causa dos outros, a primeira pessoa a ser "enganada" por ele fomos nós mesmos. Ele surgiu primeiro para que não colapsemos ao pararmos em frente ao espelho.
O problema é que, com o tempo, esse eu de vitrine deixa de ser uma roupa e vira pele. A pessoa já não sabe mais onde termina a apresentação e onde começa a verdade. Ela se acostuma a viver para manter uma imagem mínima. A imagem do casal que está bem, da família que está equilibrada, do trabalhador que está firme, do crente que está em paz, do amigo que está sempre disponível. E quanto mais ela mantém essa imagem, mais ela se afasta da própria experiência real de si.
É aí que o coração começa a se dividir. É nesse momento que a vida real se esgota.
Porque existe uma diferença entre ter privacidade e viver escondido. Privacidade protege. Mas esconder-se é uma forma de engano. É como se a alma dissesse: “se alguém enxergar o que eu carrego por dentro ou o que faço, eu não vou aguentar o julgamento”. Então esse “eu” montado se torna uma estratégia diária, e criamos uma complexa e vistosa vitrine para sermos aceitos e vistos. O eu da vitrine trabalha, conversa, vai à igreja, interage, responde, enfim, ele faz o necessário. Mas ao mesmo tempo ele não descansa. Ele não tem paz. Ele apenas se defende.
E quando a vida vira vitrine, a gente não está buscando aplauso o tempo todo. Não é isso. Muitas vezes a gente só está buscando "permissão para existir". A pessoa não quer ser celebrada, mas apenas não quer ser questionada. No fundo, ela não quer ser admirada, ela só quer não ser vista como um problema. E isso é mais triste do que vaidade ou inveja, pois trata-se de carência de segurança. É a falta de um lugar seguro onde ser real não seja perigoso.
Por isso a vitrine seduz. Ela oferece controle. Na vitrine, eu escolho o ângulo. Eu escolho a narrativa. Eu escolho o que mostro e o que escondo. Eu escolho o mínimo de normalidade que preciso sustentar para não desmoronar diante dos outros. E, sem perceber, começo a viver para proteger essa normalidade. Não importa se por dentro eu estou esgotado, irritado, triste, com medo, sem fé ou sem rumo. Desde que, por fora, eu pareça funcional.
Só que a alma paga essa conta.
A conta vem na forma de cansaço, de uma doença sem motivo, de sensação de vazio, de irritação gratuita, de ansiedade, de não conseguir se alegrar com o outro, de necessidade de aprovação, de dificuldade de orar com sinceridade. Sem falar quando vem na forma de relações rasas. Porque ninguém consegue ser profundamente amado quando só oferece uma versão editada de si. A vitrine atrai olhares, mas não sustenta vínculos. Ela dá a impressão de companhia, mas produz solidão. Porque, no fundo, você começa a pensar: “me amaria se me conhecesse de verdade? Se me ama, ama o meu personagem.”
E aqui existe uma armadilha espiritual também. A gente começa a confundir vida cristã com aparência de estabilidade. Como se fé fosse sinónimo de estar sempre bem. Como se maturidade fosse nunca fraquejar. Como se santidade fosse ter um discurso limpo e um coração sem fissuras. E então a própria igreja, sem querer, pode virar mais um palco onde o falso eu se fortalece.
Só que Deus não trabalha com personagens. Deus trata com pessoas.
O evangelho não é um convite para fingir que está tudo bem. Nunca foi. O evangelho é um convite para ser verdade diante de Deus e, aos poucos, diante de gente segura. É um caminho de integração. É a verdade como caminho para deixar de viver dividido, deixar de sustentar uma imagem, deixar de esconder a dor com uma legenda bonita. E isso não significa expor tudo, mas significa parar de mentir para si mesmo. Significa admitir o real. Porque só o real pode ser cuidado. Só o real pode ser curado.
Talvez uma das coisas mais maduras que alguém pode fazer nos dias atuais seja esta. Reduzir a vitrine e aumentar a vida interior. Diminuir a necessidade de parecer minimamente bom, normal ou bem-sucedido, e buscar, em Deus, a coragem de ser verdadeiro. Verdadeiro não no sentido de contar tudo a todos, mas no sentido de não viver em contradição. Não viver sustentando uma máscara para sobreviver.
A vitrine pode até dar uma sensação rápida de ordem. Mas ela não dá paz. Paz é outra coisa. Paz é quando o que eu sou por dentro não precisa ser negado por fora para que eu seja aceito. Paz é quando eu não preciso performar normalidade para merecer amor ou admiração.
E, no fim, fica a pergunta que ninguém gosta de encarar, mas que salva: "Quem sou eu fora da vitrine?" Se a resposta for "eu não sei" ou "eu não gosto", talvez seja hora de sair da vitrine e abrir os depósitos da alma. Abrir espaço para Deus reconstruir o que a gente tentou manter apenas com aparência.
— Pr. Maurício de Souza e Silva

Comentários